Joana Félix Phd em Química, é especialista no reaproveitamento de resíduos sólidos e esteve em Porto Alegre-RS para apresentar o Workshop "Uso e Reuso de Resíduos Sólidos" realizado na Fiergs. Com uma platéia composta por alunos, professores e demais interessados no assunto, a palestrante explicou o processo de extração de produtos como colágeno, cromo e taninos a partir de resíduos domésticos e industriais. Confira a entrevista concedida ao Informativo do CRQ-V.
- Quando você começou a trabalhar na área de reutilização e reaproveitamento de Resíduos?
Iniciei as pesquisas na área de reutilização e reaproveitamento de resíduos em 2000, quando fui fazer o pós-doutorado na Universidade de Harvard (EUA), na área de meio ambiente. O objetivo da pesquisa foi estudar o reaproveitamento de resíduos classe 1 de curtumes através de enzimas para tal finalidade. Diante dos bons resultados, comecei também a estudar o reaproveitamento de resíduos domésticos e de resíduos classe 1 de galvanoplastia. Os trabalhos de pesquisa foram desenvolvidos em 18 meses.
- Qual o objetivo de suas pesquisas? O desenvolvimento sustentável se tornou moda ou é algo importante a ser seguido?
O objetivo da pesquisa consiste no reaproveitamento de resíduos domésticos e industriais através de enzimas específicas que desenvolvi no pós-doutorado. Todas as pesquisas visam total eliminação da poluição ambiental causada pelos metais pesados (tias como cromo, chumbo, mercúrio, cádmio, zinco, níquel, antimônio, bário, selênio, etc.), ou seja, a extinção dos riscos à saúde humana pela eliminação da poluição dos rios e manaciais, lençol freático, solo, ar e outros. Esses metais pesados pesados são cancerígenos, mutagênicos e alérgicos; e uma vez degradados, permanecem no solo e podem ser absorvidos por plantas que posteriormente servirão de alimento diretamente ao homem ou a animais. Sendo assim, o desenvolvimento sustentável não pode ser encarado como moda ou assunto do momento, e sim, como algo importante a ser seguido.
- A partir do curtume, extrai-se o cromo, colágeno, corantes, taninos e óleo de engraxe. Qual o destino destes subprodutos? Qual o método e análises utilizadas para extraí-los?
Os subprodutos extraídos são destinados a diversas indústrias químicas. Todas as metodologias empregadas nos processos de extração são patenteadas. Nestes processos, as enzimas desenvolvidas realizam o encapsulamento dos subprodutos a serem extraídos. Após extração, os subprodutos são caracterizados em espectrômetros, espectrofotômetros e outros.
- Como é feito o processo de transformação de resíduos domésticos em fertilizantes NPK? Qual a forma do fertilizante e como ele é aplicado?
Trata-se de um fertilizante mineral e orgânico. O processo de reaproveitamento recebeu o nome: "Transformação do Lixo Doméstico em Fertilizante N-P-K Via Processos Dra. Joana Félix". São empregados outros tipos de enzimas que também foram desenvolvidas no pós-doutorado. Essas enzimas são absolutamente inócuas para aqueles que as manuseiam, para a saúde pública e para o meio ambiente. No reaproveitamento do lixo doméstico pode-se trabalhar de duas maneiras: 1ª) lixo doméstico na forma bruta ou 2ª) lixo doméstico após triagem e separação dos recicláveis. Em ambas as maneiras, o lixo é triturado, e após, se realiza a eliminação dos patógenos. A partir daí o lixo é submetido aos Processos Dra. Joana Félix em tanques com agitação, ou seja, digestão, encapsulação dos metais pesados (exemplo: cromo, chumbo, mercúrio, cádmio, zinco, níquel, antimônio, bário, selênio, etc) e transformação em fertilizantes. Tudo isso é realizado em um período de 5 horas (para o lixo doméstico após triagem e separação dos recicláveis), ou por um período de 10 horas (para o lixo doméstico na forma bruta). Como resultado temos um fertilizante pastoso e água (fertilizante de baixa concentração). Após a secagem e moagem do fertilizante pastoso obtém-se cerca de 8 a 10% de fertilizante sólido (mistura de fertilizante mineral "N-P-K" e orgânico) e cerca de 90% de água (fertilizante mineral e orgânico de baixa concentração). A Composição química média do média do fertilizante sólido é aproximadamente: N = 8%, P = 5%, K = 3% e Matéria Orgânica = 84%. Tanto o fertilizante sólido, como o fertilizante líquido, são isentos de metais pesados, possuem pH entre 6,5 a 6,8 e têm aplicação direta no solo (em diversas culturas), sem necessitar de correções calcárias posteriores. O fertilizante líquido pode ser utilizado para irrigação ou pode ser reaproveitado nos processos seguintes em substituição à água.
- O resultado do reuso de resíduos tem valor comercial? Já se pode pensar em investimentos mercadológicos?
Sim tanto o fertilizante como o cromo, colágeno, corantes, taninos e óleo de engraxe possuem valor comercial, porque são equivalentes aos produtos existentes no mercado. O fertilizante já foi aprovado nas culturas testadas até o momento (cana de açúcar, café, soja, milho, frutas cítricas, hortaliças e gramados). Vale ressaltar que, atualmente, o Brasil importa 80% de todo fertilizante utilizado em território nacional. O cromo é destinado principalmente para as indústrias de galvanoplastia; os taninos para as indústrias cosméticas e de fertilizantes; os óleos de engraxe são transformados em biodiesel; o colágeno e os corantes possuem mais aplicações. Quanto aos investimentos mercadológicos, até novembro iniciaremos o reaproveitamento do lixo doméstico da cidade de Franca-SP e a partir de 2009 na região litorânea de são Sebastião-SP (nesta região o lixo doméstico é aterrado a um valor de R$ 600,00/tonelada). Ainda em 2008, ampliaremos o trabalho de reaproveitamento dos resíduos de curtumes.
- Qual o motivo de seu trabalho só ter alavancado quando teve a oportunidade de realizar o pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos? Quais outros pontos positivos que aprendeste pesquisando no Exterior?
Eu só comecei a trabalhar com resíduos domésticos e industriais em 2000 no pós-doutorado. Meu doutorado foi na área de sínteses orgânicas e meu mestrado foi na área petroquímica.
- O Brasil ainda tem que crescer, principalmente na questão do reuso de materiais? O que é necessário para que mais químicos invistam neste tipo de pesquisa?
São necessários mais investimentos por parte das agências financiadoras de projetos.
- Qual a pesquisa que está desenvolvendo no momento?
Estou desenvolvendo o reaproveitamento do vinhoto (resíduo gerado nas usinas de açúcar e álcool). As usinas aplicam o vinhoto na lavoura, mas devido ao seu alto teor de potássio (K), o solo está sendo prejudicado e a sua prática proibida. Os resultados da pesquisa em andamento estão muito interessantes, pois estamos conseguindo extrair todo o potássio presente no vinhoto. Sabe-se que o potássio utilizado no Brasil é importado com valores expressivos. |